Passei a mão pela maçaneta da porta, entrei no meu apartamento. Haviam caixas espalhadas pela casa, todas estavam vazias, abertas, algumas eram maiores, outras menores. Por dentro de mim, um vazio imenso, confuso e destruidor, só de lembrar que teria de me desfazer de tudo que me lembrasse ele. O telefone tocou:
- Ei guria, o que tu fazes?
Era ele, com aquela incrível voz rouca, com falso tom de bondade. Era como se ele fosse um show do Gessinger e eu a galera enlouquecida. Quando deixei as lembranças escaparem por dentre os meus dedos como grãos de areia, ele me interrompeu:
- Estás aí guria? Tu já empacotastes minhas coisas? Me responde…
O falso tom de bondade se foi, e levou consigo minhas esperanças de que algum dia tudo voltasse ao normal. Eu respondi, afim de que ele desligasse logo a porra do telefone e nunca mais ligasse. Não sei explicar ao certo, porém aquele vazio que havia por dentro de mim enquanto eu olhava para as caixas vazias, começou aumentar, começou a doer mais e mais, começou a sangrar.
Parei de sonhar, limpei as lágrimas e fingi que conseguiria lidar com tal situação. Era tão piegas que me deixava enojada com tanto amor transbordando através de mim, com tantas lembranças passando por dentre meus olhos, perfumes, o gosto do beijo, a sensibilidade do toque, aquilo tudo me deixava um tanto assustada, todavia, se eu colocasse todas as coisas dele dentro de caixas, eu ficaria tão vazia.
Comecei pela chave do apartamento, nela continha o chaveiro que ele me deu no primeiro mês de namoro, era uma espécie de souvenir que ele me trouxe da França. Depois olhei para o lado e vi os livros que ele tanto amava, me lembro de quando ele me entregou um bouquet de rosas com um cartão, nele estava escrito: “O seu corpo cola-se ao meu. A sua boca vem baixando devagar, vencendo barreiras, colando-se à minha, de leve, tão de leve que receio um movimento, um suspiro, um gesto, mesmo um pensamento. Estou em branco como a noite. Ela me abraça. Ela está perto. “, daquele livro do Caio Fernando que ele tanto gostava. Olhei para o outro lado e vi os discos, as fotos, a caneca de café, as roupas.
Fui para o quarto e vi que tudo estava do mesmo jeito que ele havia deixado, as cinzas de cigarro dentro do copo com um pouco de cerveja que já estava com gosto amargo, o gosto daquela cerveja era idêntico ao gosto de fel que subia pela minha garganta, aquele nó. Não consegui, deixei que escorresse outra lágrima, essa caiu sobre a carta que estava jogada no chão por dentre as garrafas de bebida e as nossas roupas intímas. Um colchão no canto do quarto que era cenário do nosso amor, eu me lembro que todos os dias ele vestia seu casaco preto de capuz azul e vinha me acordar com beijos invasivos por dentre meus seios, meu pescoço, minha boca. Eu tinha dificuldade em assimilar aquilo tudo com a realidade. Na parede haviam algumas fotos, apenas as que restaram depois da nossa última briga.
Fui andando pelo apartamento e recolhendo tudo que pertencia à ele, me lembrando das palavras ásperas que ele me disse antes de partir, aquelas que são quase insuportáveis de se escutar, justamente por isso dói tanto. Me orgulhava em dizer que o conhecia em todos os aspectos, mas, com o tempo tuas faces foram se revelando, seus lados obscuros, é como se o fogo tivesse queimado tudo que escrevemos juntos e através da fogueira, minhas lágrimas iam se misturando por dentre os lábios e eu sentia o gosto salgado da dor e o gosto amargo daquela maldita cerveja. Acendi um cigarro e vi que na minha cabeça ressoavam destoadas vozes, elas iam e vinham.
Foi quando me dei conta de que a maioria das suas coisas me pertenciam também, pertenciam mais à ele do que a mim, fiquei tentando encontrar, olhei nos bolsos, vasculhei o chão, abri a cabeça, em qual ponto da nossa vida eu deixei isso acontecer? Abri o guarda roupas e lá estavam todas as roupas que ele havia deixado por aqui, num dia um shorts, noutro uma camiseta, tudo dele. Menos ele.
Me olhei no espelho, limpei outra lágrima de gosto salgado, meu coração pulsava de saudade das mãos dele, limpei outra, eu já não tinha mais o que fazer. Quando a última lágrima caiu, eu me perguntei:
- Haverá caixa do meu tamanho?
Dormi com aquela carta em mãos.
(Bruna Siena)