Valor.

Ela entrou.
Jogou a bolsa no sofá, pegou toalha e acendeu a luz. Trancou a porta sem ter o costume de fazê-lo. Tirou a roupa, se olhando no espelho. Água quente nas costas, uma bochecha contra o azulejo e o corpo dava a curva daquela coisa que liga o chuveiro. Já tinha entrado chorando. Parou e chorou mais. Pensou nele, pensou em outro, confundiu os dois. E tentando tirar ambos de qualquer lugar, enfiou a mão entre as coxas tateando sua fundura. Uma lágrima caiu e se confundiu com a queda duma gota de vapor no box. Percebeu que não adiantava… que o lugar de um homem não fica só entre as pernas. Tentou se encontrar novamente no espelho, agora marcado de vapor. Chegou à porta e só então percebeu que tinha se trancado e constatou que quase nunca faz isso.

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Para encontrar-te.

“Se quisesses tão só o bom e o belo,
se em tua boca más palavras não tramasses,
não haveria essa vergonha nos teus olhos
e poderias exprimir-te francamente.”
(Resposta de Safo á Alceu – Safo)

Volto em breve, estou muito ocupada terminando alguns contos. Que ela volte em breve também.

Editando 30/10: Estou num período 8 ou 80. Num dia eu acho que tudo que eu escrevo é bom e que as pessoas também gostarão. Noutro eu acho que tudo isso não passa de uma grande merda, me dá vontade de jogar todos esses rascunhos na lata do lixo. Mas não o faço. Volto a reforçar, quando me der vontade… eu volto. Ninguém vai sentir falta mesmo. Beijos, Bruna Siena.

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Quero me devolver á você.

Passei a mão pela maçaneta da porta, entrei no meu apartamento. Haviam caixas espalhadas pela casa, todas estavam vazias, abertas, algumas eram maiores, outras menores. Por dentro de mim, um vazio imenso, confuso e destruidor, só de lembrar que teria de me desfazer de tudo que me lembrasse ele. O telefone tocou:

- Ei guria, o que tu fazes?

Era ele, com aquela incrível voz rouca, com falso tom de bondade. Era como se ele fosse um show do Gessinger e eu a galera enlouquecida. Quando deixei as lembranças escaparem por dentre os meus dedos como grãos de areia, ele me interrompeu:

- Estás aí guria? Tu já empacotastes minhas coisas? Me responde…

O falso tom de bondade se foi, e levou consigo minhas esperanças de que algum dia tudo voltasse ao normal. Eu respondi, afim de que ele desligasse logo a porra do telefone e nunca mais ligasse. Não sei explicar ao certo, porém aquele vazio que havia por dentro de mim enquanto eu olhava para as caixas vazias, começou aumentar, começou a doer mais e mais, começou a sangrar.

Parei de sonhar, limpei as lágrimas e fingi que conseguiria lidar com tal situação. Era tão piegas que me deixava enojada com tanto amor transbordando através de mim, com tantas lembranças passando por dentre meus olhos, perfumes, o gosto do beijo, a sensibilidade do toque, aquilo tudo me deixava um tanto assustada, todavia, se eu colocasse todas as coisas dele dentro de caixas, eu ficaria tão vazia.

Comecei pela chave do apartamento, nela continha o chaveiro que ele me deu no primeiro mês de namoro, era uma espécie de souvenir que ele me trouxe da França. Depois olhei para o lado e vi os livros que ele tanto amava, me lembro de quando ele me entregou um bouquet de rosas com um cartão, nele estava escrito: “O seu corpo cola-se ao meu. A sua boca vem baixando devagar, vencendo barreiras, colando-se à minha, de leve, tão de leve que receio um movimento, um suspiro, um gesto, mesmo um pensamento. Estou em branco como a noite. Ela me abraça. Ela está perto. “, daquele livro do Caio Fernando que ele tanto gostava. Olhei para o outro lado e vi os discos, as fotos, a caneca de café, as roupas.

Fui para o quarto e vi que tudo estava do mesmo jeito que ele havia deixado, as cinzas de cigarro dentro do copo com um pouco de cerveja que já estava com gosto amargo, o gosto daquela cerveja era idêntico ao gosto de fel que subia pela minha garganta, aquele nó. Não consegui, deixei que escorresse outra lágrima, essa caiu sobre a carta que estava jogada no chão por dentre as garrafas de bebida e as nossas roupas intímas. Um colchão no canto do quarto que era cenário do nosso amor, eu me lembro que todos os dias ele vestia seu casaco preto de capuz azul e vinha me acordar com beijos invasivos por dentre meus seios, meu pescoço, minha boca. Eu tinha dificuldade em assimilar aquilo tudo com a realidade. Na parede haviam algumas fotos, apenas as que restaram depois da nossa última briga.

Fui andando pelo apartamento e recolhendo tudo que pertencia à ele, me lembrando das palavras ásperas que ele me disse antes de partir, aquelas que são quase insuportáveis de se escutar, justamente por isso dói tanto. Me orgulhava em dizer que o conhecia em todos os aspectos, mas, com o tempo tuas faces foram se revelando, seus lados obscuros, é como se o fogo tivesse queimado tudo que escrevemos juntos e através da fogueira, minhas lágrimas iam se misturando por dentre os lábios e eu sentia o gosto salgado da dor e o gosto amargo daquela maldita cerveja. Acendi um cigarro e vi que na minha cabeça ressoavam destoadas vozes, elas iam e vinham.

Foi quando me dei conta de que a maioria das suas coisas me pertenciam também, pertenciam mais à ele do que a mim, fiquei tentando encontrar, olhei nos bolsos, vasculhei o chão, abri a cabeça, em qual ponto da nossa vida eu deixei isso acontecer? Abri o guarda roupas e lá estavam todas as roupas que ele havia deixado por aqui, num dia um shorts, noutro uma camiseta, tudo dele. Menos ele.

Me olhei no espelho, limpei outra lágrima de gosto salgado, meu coração pulsava de saudade das mãos dele, limpei outra, eu já não tinha mais o que fazer. Quando a última lágrima caiu, eu me perguntei:

- Haverá caixa do meu tamanho?

Dormi com aquela carta em mãos.

(Bruna Siena)

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Campanha: Salve a casa de Caio Fernando Abreu.

Não sou do meio artístico, tão pouco tenho competência para falar das obras de Caio Fernando Abreu, porém me sinto no direito de levar essa campanha adiante, em resposta ao Caio. Quatorze anos sem o nosso grande escritor, que além de escritor era grande como pessoa.

Nasceu na cidade de Santiago em 1948, no Rio Grande do Sul e ainda jovem mudou-se para Porto Alegre, onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e logo depois Artes Cênicas, abandonou ambos para se dedicar ao trabalho jornalístico. É considerado um dos contistas exponenciais de sua época, tendo como objetivo uma temática própria, juntamente com sua linguagem fora dos padrões normais. Viajou para a Europa com o objetivo de abandonar tudo, quando voltou para Porto Alegre foi morar com seus pais. Encontrou um sentido mais delicado para a vida, cuidando de suas roseiras, apenas escrevia, faleceu em 1996 e acabou deixando a casa onde vivia, no Bairro Menino de Deus, em Porto Alegre.

A família de Caio não pagou os impostos e agora a casa irá para o leilão, provavelmente a casa será demolida para a construção de um edifício. Me admira muito, os gaúchos que se julgam tão cultos e politizados, deixarem tal coisa acontecer. A única memória do Caio é aquela casa do Menino de Deus e o mínimo que podemos fazer é ajudar nessa campanha. O Rio Grande do Sul já perdeu, por falta de interesse e iniciativa o acervo de Erico Veríssimo e Mario Quintana, isso é um tanto vergonhoso para o estado.

Não entendo de protestos, tão pouco de política e também não moro em Porto Alegre, porém, desejo que a casa seja preservada e que a memória de Caio seja mantida. O que queremos com isso? Transfomar a casa do Menino de Deus em um espaço cultural, a campanha envolve vários meios de comunicação, organizações sociais, empresas e a internet. Já conseguimos apoio da rádio local de Porto Alegre e também no jornal, se todos fizerem a sua parte, conseguiremos engajar a campanha em outros meios, precisamos de esforço para sermos notados. Podemos ajudar por meio do orkut, twitter, facebook, blogs, qualquer forma de ajuda é bem vinda. O jeito é batalhar para que o estado ou alguma empresa privada assuma a casa.

Vamos deixar que a memória do nosso querido escritor Caio Fernando Abreu seja destruída? Vamos abraçar a causa e fazer com que a vida de caio, metafóricamente, seja eterna enquanto dure. Visite a comunidade da campanha: Salve a casa de Caio Fernando Abreu. Assine a petição e ajude a preservar o passado: Petição.

Toda a minha saudade, e o meu amor de sempre.
Caio e eu, eu e Caio.

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A dança.

Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio
Ou flecha de cravos que propagam fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e
Leva dentro de si, oculta, a luz daquelas flores.
E graças a teu amor, vive oculto em meu
Corpo o apertado aroma que ascende da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde.
Te amo diretamente sem problemas nem orgulho;
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira.

Senão assim, deste modo, em que não sou nem és.
Tão perto de tua mão sobre meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

(Pablo Neruda)

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Esqueci meus cigarros na tua casa.

Passou a língua por dentre a seda, de modo com que a saliva funcionasse como uma espécie de cola para o papel. Passou os dedos por toda a extensão daquele cigarro, pegou o isqueiro e acendeu. Olhou pro lado, lá estava ela, sentada no morro do estádio de futebol da cidade. Linda, mais do que linda.

Ela notou sua presença, olhou para os lados a fim de ver seus amigos, nada. Não restou-lhe dúvidas. Levantou e foi em sua direção. O baseado, que já estava no fim, queimou seus dedos. Ela se sentou, nenhuma palavra, nenhum olhar, nenhum gesto. As palavras se embaralhavam e simplesmente não saiam, depois de um tempo a maconha já havia feito efeito, quando ela resolveu quebrar aquele silêncio que matava.

- Por que você foi embora?
- Me deu uma puta vontade de partir.
- Deve haver um motivo concreto, porquê?
- Eu tinha que partir, entenda.

(Silêncio)

- Sabe guria, eu tive que partir por um único motivo.
- Sem delongas, por favor.
- Amor.
- Mas eu tenho o amor que você quer…
- Não.
- Eu te amo muito esse é o problema, você me ama mais ou menos.
- Quem disse?
- Eu vejo nos teus olhos.
- Estou sofrendo sabia?
- Tive que partir antes que eu me esquecesse de mim, cada dia que se passava você abria uma ferida no meu peito, não vi outra solução se não a de partir. E quer saber toda a verdade?
- Quero.
- Cansei.
- Cansou de quê?
- De tudo.
- De tudo o quê?
- Da monotonia.
- Chega.
- Preciso partir, não me procure, tudo bem?
- Não, você não acredita em mudança? Nós poderíamos tentar novamente. Porra, temos um futuro promissor, vamos ser felizes. Eu sei disso.
- Não vamos.
- Eu não entendo por que você me olha desse jeito.
- Você não tem mais o amor que eu quero.
- Tenho.
- E o que você quer? Eu sei, não devemos amar pensando em receber algo em troca. Mas porra, eu te amei tanto… isso é doentio. Eu me recuso.
- Por que você está dizendo isso?
- Perdeu o encanto.
- Que encanto? O nosso?
- O meu.

Chegou próxima a tua boca e sussurrou algo.

- Vou embora.
- Espera, volte aqui.
- Não.

Puxou ela contra seu corpo, se olharam por minutos. Um último beijo, o sol havia ido embora, o infinito céu de estrelas chegou depois do crepúsculo.

- Adeus.
- Eu te amo.
- Eu também, mas… me desculpe, eu não posso ficar.
- Te daria as estrelas se ficasse.
- Minha vida já está cheia de estrelas.
- Te daria a lua se ficasse.
- Eu só queria o seu amor.

Olhou pela última vez, a cor do seus olhos, lembrou dos lábios, da pele, do sexo. Desataram as mãos, as vidas, os sonhos. Foi, nunca mais voltou.

(Bruna Siena)

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Eu bebi saudade a semana inteira.

Confesso que estou fodida, literalmente fodida. As coisas estão saindo do meu controle, não consigo controlar essas letras que insistem em percorrer as linhas dessa vida. Soaria clichê dizer que… saudade mata, mata sim. Mata os neurônios, é. Tu não sabes como é caminhar sem ter alguém ao teu lado, pra pegar na tua mão e dizer: Vai, mas tome cuidado e vá pela esquerda, porque se tu fores pela direita, corres o risco de não me encontrar mais por aí. Incrível, eu sempre fui pela direita. Pois é, saudade mata.

A vida vai tomando caminhos opostos, é quando tu percebes que… simplesmente está á milhas de distância da pessoa amada. O mais engraçado é que eu não consigo escrever nada que seja relacionado á você, eu acho que sei o porque… tu me roubas as palavras. Vens como se não quisesse nada, descobres a senha do meu cofre e roubas tudo que há de bom dentro de mim. Isso é tão sujo.

Eu estou cheia de erros de português, alcool no sangue e cinzas por dentro de mim. O que resta são apenas fragmentos vagos na memória, vou voltar e seguir o caminho da esquerda, deixei pedaços do meu coração pelo caminho. Ah, esqueci que tu comestes os pedaços que perdi, restou apenas o que tu vês, tudo o que insiste em transparecer entre meus seios. Fui vítima de um ato canibalesco. Tu destruístes, devorastes e incoporastes todo o meu ser. O ciclo está incompleto. Pois… tu não sabes ainda que depois de tudo isso eu estou aqui? Queres prova de amor maior? Esperas o quê? São perguntas que eu faço todos os dias na frente do meu espelho, ele me responde todos os dias a mesma coisa: Para amar o abismo é preciso ter asas. É, meu espelho lê Nietzsche.

Sou uma suicida inconstante, insolúvel, eterna. Não quero participar dessa merda de metanóia, não vou mudar, não é de hoje essa promessa do agora, do não mudar, do não sofrer. Dores? Hahaha, é possível ouvir o grito vindo do que ainda restou daquilo que chamo de coração: Somos várias, é melhor chamar pelo sobrenome. Estou cansada de andar pelas margens, cansada do tanto faz, cansada do não quero abrir feridas no teu peito.

Saudade essa que eu tenho dos teus cabelos, da tua mão quente, da grama verde, da fumaça… saudade essa que me mata, que me faz querer andar essas milhas á procura da tua boca. Cala minha boca com a tua, vem logo… quero fazer amor com as tuas palavras.

(Bruna Siena)

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